terça-feira, 30 de dezembro de 2008

ROMARIA À SRA DE LA SALETTE



Tendo em consideração a tradição popular, transmitida de pais para filhos ao longo dos anos em Vila Cova, a romaria à Sra. De La Salette inicialmente, realizava-se no dia 18 de Setembro de cada ano.
Por razões que se perderam nas brumas da memória, esta peregrinação foi alterada para o dia 15 de Agosto, um dos possíveis factores da mudança pode estar relacionado com as condições climatológicas, que por essa altura eram bastante rigorosas e frequentemente tinham inicio muito tempo antes da estação de Outono começar. Um outro factor, prende-se também com o facto de esta data representar no calendário católico, a celebração da Assunção de Nossa Senhora.
Este culto teve início nos finais do século XIX, altura em que uma piedosa senhora, natural da freguesia, D. Ana de Jesus Barria, muito devota da Senhora de La Salette, terá tido um sonho, no qual Nossa Sra. lhe pedia que erguesse um altar em sua honra. Após lhe ter sido cedido, pela Junta de Freguesia Paroquial, um terreno no lugar de Malhada da Fraga da Pena, conforme consta dos registos da altura, deu-se então início à construção do Santuário conforme o pedido da Santa.
Este Santuário, foi construído com os fundos angariados pela devota, onde nem só a população de Vila Cova contribuiu, mas também as povoações vizinhas, que traziam carros de bois carregados de pedra que descarregavam no local da construção ao som do toque do sino, que não se calava enquanto os carros subiam a encosta por caminhos tortuosos.
Apesar de no nosso tempo se viver uma crise de fé, esta peregrinação consegue resistir à voracidade dos tempos modernos, mantendo os princípios de humildade e fé que lhe deram origem. De tal forma que ainda hoje se mantém, culminando com uma missa solene que se realiza após a chegada da procissão, que parte da Igreja Paroquial subindo pelos mesmos caminhos tortuosos, que percorriam os carros de bois que transportavam as pedras para a construção da capelinha.
A procissão reflecte, eventualmente, a essência da peregrinação, na medida em que os peregrinos se despojam de todos os seus preconceitos, esperando na sua fé que a Santa interceda por eles no alívio dos seus males, sejam eles do corpo ou da alma.
É uma procissão composta por diversos elementos que fazem parte da tradição religiosa e cultural da freguesia, nomeadamente uma Cruz, a bandeira de Nossa Senhora de La Sallette, a bandeira do Sagrado Coração de Jesus, nossa Senhora e os pastorinhos e a Rainha dos anjos os peregrinos e o andor. A Cruz, encabeça a procissão indicando o caminho aos peregrinos sendo seguida pela bandeira de Nossa Senhora de La Salette. De seguida encontramos a representação da Nossa Senhora de La Sallette e dos pastorinhos a quem ela apareceu, Maximino e Melanie, vestidos com trajes e produtos da época, geralmente representados por crianças da região. Depois sucede-se a bandeira do Sagrado Coração de Jesus e as figuras representativas da Rainha dos anjos e respectivos anjos. O elemento central da procissão é composto pelos peregrinos que seguem em duas filas paralelas, amortalhados, demonstrando desta forma simples e despojada a fé e o amor que lhes vai no íntimo. Finalmente, encerrando a procissão, podemos ver o andor coroado pela imagem da Santa e dos pastorinhos, enfeitado com centenas de flores, onde se incluem diversas fitas e onde é colocado o fruto das esmolas relativas às promessas dos peregrinos, carregado em ombros por quatro pessoas. Partindo da Igreja Paroquial a procissão segue os caminhos da aldeia de Vila Cova em direcção ao santuário, situado na encosta do Monte Rosário.
Embora centenária, esta peregrinação conserva intactos os princípios que lhe deram origem: a humildade de um coração que ama a Deus e a sua mãe Maria Santissíma e que se reflecte na simplicidade dos seus peregrinos, vestidos apenas com uma simples veste branca.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Moinhos






Geralmente, em todas as aldeias transmontanas existem moinhos. A freguesia de Vila Cova tal como outras freguesias vizinhas não foi excepção. Outrora, estes eram cobertos de colmo e hoje alguns nem sequer têm cobertura, devido ao abandono a que estão expostos. Alguns destes moinhos, falta-lhes também a mó que porventura andará a servir de adorno nalguma casa particular. Graças a esta pedra, o milho era transformado em farinha para depois se fazer o pão, tão necessário e indispensável para a subsistência das famílias. A freguesia de Vila Cova não foi excepção, e sabe-se que no século XVIII, mais precisamente em 1758, época esta em que temos à frente dos designos da nação o rei D. José I, apelidado de “O Reformador”, sendo o seu reinado fruto do governo do ministro Sebastião José de Carvalho e Melo, conde de Oeiras e Marquês de Pombal. Ficando este mais precisamente conhecido na história por Marquês de Pombal. Esta freguesia nesta época segundo as Memórias Paroquiais já possui-a seis moinhos. No meio desta aldeia passava um regato com uma ponte de pau e neste mesmo regato havia “6 moinhos para o povo de Villa Cova moer o seu pam, quazi todos são de erdeiros, somente ham dois de maquia”. Quer isto dizer que dos seis moinhos que existiam apenas dois, é que não pertenciam às mesmas famílias visto que os outros passavam de pais para filhos, ou seja eram uma herança. Sabe-se também, segundo fontes orais que posteriormente na aldeia de Mascoselo, aldeia esta que forma com Vila Cova as duas únicas povoações da freguesia de Sam Thiago de Villa Cova, que por volta de 1930 ou mais precisamente há setenta e oito anos foi construído por um morador da aldeia, Sr. António Machado, um pequenino moinho, de dimensões muito reduzidas que daria apenas para remediar a sua própria família. Em suma, a vida dos moradores desta freguesia sempre dependeu da agricultura, da criação de animais, da extracção do ferro, associadas estas actividades à necessidade que o homem sempre teve ao longo da história de confeccionar os seus próprios alimentos, neste caso o seu próprio pão. Precisando assim dos moinhos para ai poderem triturar o milho que cultivavam nos campos, obtendo deste modo a farinha para depois poderem cozer em grandes fornos de lenha o seu próprio sustento.

Igreja paroquial



A igreja de Vila Cova era do padroado dos religiosos de S. Jerónimo do real convento de Belém, aos quais os moradores da aldeia, na Idade Média, tinham de pagar os seus foros.

Edificada no século XVI, ano de 1570, quando foi criada a Irmandade de Nossa Senhora, é uma igreja aparentemente simples mas que ostenta uma grande riqueza quer interior quer exterior.

É uma igreja com uma só nave e de planta rectangular, que resulta da ampliação sofrida, por volta do século XVIII, de uma pequena capela existente no centro da aldeia, pela assimilação de parte da igreja do Santíssimo Sacramento, situada “a dois tiros de espingarda” fora da povoação conforme relatos da época, presumivelmente no lugar que actualmente é conhecido por “Leira da Igreja”, ficando esta a ser a igreja da terra, mais tarde Igreja Matriz.

Este processo de ampliação consiste na assimilação por da capela a que chamavam de Santo António, aproveitando a capela – mor onde se encontrava o altar – mor com pinturas sobre tábua representando a vida de Santo António, dos elementos transladados da igreja do Santíssimo Sacramento. A parte central deste altar é da época maneirista, séc. XVI, mantendo a sua traça original à qual são acrescentadas as partes laterais, estas do século XVIII, da época barroca.

Dentro da igreja existem ainda mais dois altares do período barroco, um dedicado ao Sagrado Coração de Jesus e outro dedicado a Nossa Senhora de Fátima.

Na parte exterior da igreja podemos lhe apreciar um lindo nicho onde se encontra a imagem de Santo Tiago, feita em pedra. Este conserva alguns dos seus atributos tais como: a concha e a espada, que terá a ver com o caminho feito pelos peregrinos para São Tiago de Compostela, uma vez que esta era uma das vias que levava o peregrino a S. Tiago de Compostela.

Ainda na parte exterior, é de destacar uma escadaria em cantaria que dá acesso ao coro e à torre sineira.

História






Vila Cova,

é uma freguesia muito antiga e pode supor-se ter sido fundada no período Pré-Romano durante as invasões dos Bárbaros. É do conhecimento geral que existe, ainda hoje, em Vila Cova, um lugar chamado Alto do Sião que resultará da evolução do nome pessoal de origem Germânica, que corresponde, pensamos, ao território ocupado por um antigo castro de nome Siloni, provavelmente em honra de algum Rei Bárbaro, quiçá um rei das Astúrias que viveu no séc. VIII. Essa designação ter-se-á perdido aquando do repovoamento e consequente deslocação para a actual Vila Cova ou “vila entre montes”. O rei D. Dinis ter-lhe-á dado foral no séc. XIII, tendo as suas casas e foros sido entregues aos frades da ordem de S. Gerónimo a quem os moradores de S. Thiago de Villa Cova tinham de pagar os foros que eram colectados por uma pessoa da terra, nomeadamente, o Morgado António Botelho Guedes do Amaral, pessoa de alta nobreza e detentor de vasto património. A esta ordem religiosa foram ainda entregues entre outras propriedades importantes, o Convento dos Jerónimos de Lisboa.

Facto ainda de realçar na história desta freguesia é o de que em 1570 estava anexa à de S. Miguel da Pena, pertenceu ao concelho de Ermêlo até à sua extinção por decreto de 31 de Dezembro de 1835, em 1840 aparece anexa à de Quintã, fixando-se, finalmente a Vila Real.



Mascoselo,

Conta-se que partiram de Louredo oito pessoas em direcção ao Alto do Velão. Lá chegadas sentaram-se para descansar e para decidir em que direcção seguir. Consta que uns queriam seguir para o lado de Pardelhas e outros para o lado de Vila Cova. Para ultrapassar o impasse decidiram dividir-se seguindo quatro para um lado e quatro para o outro. Os que seguiram em direcção a Vila Cova, passando por aquele lugar de Mascoselo, gostaram tanto que resolveram ficar por lá.

Este é um pequenino resumo de uma historia que se conta por lá, e que poderá ter a ver com a fundação de Mascoselo ou, pelo menos, com o seu crescimento e a sua ligação a Vila Cova. Os Morgados de Vila Cova, senhores de grandes domínios, também em Louredo, quiseram, no inicio do século XVIII, concentra-los para melhor “proveito”. Não admira, pois, que o único moinho que lá encontramos fosse um não muito antigo moinho em ruínas, disfarçado debaixo de umas “eradeiras” e desconhecido para a maioria das pessoas, construído pelo Sr. António Machado por volta de 1930, como nos conta a sua filha, a Sra. Donzília Machado.

Segundo um relato de 1758 da autoria do Vigário Padre Pedro Leite, “… havia naquele lugar de “Mascutelo” uma capela da devoção da Senhora do Rosário, bem ornada. A dita capela está situada no meio do povo…”. Lamentavelmente agora nada “...bem ornada…” uma vez que está transformada em palheiro e as suas imagens espalhadas sabe-se lá por onde, ainda se pode ver, bem no meio do povo sobre a “padieira” da porta uma inscrição com a data de 1721 ? , data que coincide com o período em que os Morgados de Vila Cova vincularam os bens que possuíam nas freguesias de Campeã e Louredo “para tudo andar junto aos dois vínculos…”.